Dois minutos - de Lênin Willemen
Com muita dificuldade Heloísa vence a dor e entra no quarto do filho pela primeira vez em anos. Aquele era território proibido para ela, domínio exclusivo de Ricardo, onde nem a empregada Rute podia entrar. As roupas lavadas e passadas eram deixadas num cabideiro no corredor e as sujas, num cesto no banheiro. Heloísa não via problema nisso, "adolescência é assim mesmo", conformava-se o seu ex-marido, pai de Ricardo. Heloísa imaginava fotos de mulheres nuas na parede do quarto do filho, e que ele ficaria com vergonha se ela as visse. Nunca tivera curiosidade em confirmar suas hipóteses.
Agora ela estava ali, no lugar sagrado do filho, tentando entender como tudo tinha acontecido. A cama estava desarrumada, seguindo o padrão de todo o quarto. Restos de maconha na mesa de cabeceira. Os cds estavam espalhados pelo chão, que agora era molhado pelas lágrimas discretas que caíam quase em câmera lenta do rosto de Heloísa. Na mesa do computador, dois boletos da faculdade e são dois meses de atraso e já faz dois dias que Ricardo não está mais lá e são só dois minutos que Heloísa suporta ficar ali.
Também em dois minutos, Ricardo e mais cinco amigos espancaram um torcedor rival até a morte.
No jornal da noite, a empregada Rute vê o moço da televisão falando que o pedido de habeas corpus de Ricardo fora negado. Rute não sabia o que era habeas corpus, mas entendeu que o menino que a ignorou por 15 anos dentro daquele lar iria continuar preso. Rute só achou estranho quando a apresentadora se referiu aos assassinos do torcedor como "Grupo de jovens da Barra" e em uma outra notícia sobre roubo de carros no bloco seguinte, a mesma apresentadora falou de uma "Quadrilha da Baixada."
Escrito por Lênin Willemen às 11h25


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